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João Paulo Vilas-Boas: "A U.Porto será uma universidade de inspiração olímpica"

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O Olhar de...

- Professor universitário e treinador português

- Professor Catedrático da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto (FADEUP)

- Antigo treinador de Natação do CDUP, do FC Porto e da Selecção Nacional. Três vezes distinguido como “Treinador do Ano” pela Associação Portuguesa de Técnicos de Natação

- Membro da World Commission for Science in Sport, da UNESCO.

- Antigo Estudante da Universidade do Porto, com Licenciatura em Educação Física (1983) pelo Instituto Superior de Educação Física (ISEF) e Doutoramento em Ciências do Desporto – Biomecânica (1993) pela  Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física (FPDEF), antecessoras da actual Faculdade de Desporto.

 

- Como é que teve origem e se desenvolveu a sua ligação à Universidade do Porto? Que principais momentos guarda da sua experiência enquanto estudante da U.Porto?

 

Os meus primeiros contactos com a U.Porto estabeleceram-se através de tradições académicas, nomeadamente através dos cortejos da Queima-das-Fitas da minha irmã mais velha, por altura dos meus 6 anos de idade. Depois estabeleci um primeiro contacto mais formal com a U.Porto numa iniciativa marcante: “Um dia na Universidade”. Tratou-se de um dia em que a Faculdade de Ciências se abriu aos estudantes do Curso Complementar dos Liceus e que nos permitiu, enquanto tal, a par de uma interessante sensação de madureza precoce, a noção de que a Universidade cobria territórios quase insuspeitos pouco depois do 25 de Abril, nomeadamente os espaços da investigação científica e da inovação, que conflituavam com a ideia de que a universidade estava rendida ao conformismo e ao estabelecido. Convenci-me nesse dia que a universidade talvez fosse, afinal, a via mais óbvia e tradicional para o inconformismo intelectual que o futuro me oferecia e que me permitiria substituir com acerto os percursos nas “ciências paralelas” (mesmo se não necessariamente “ocultas”) que calcorreara entusiasticamente desde os meus 14 anos.

Pese embora estes primeiros contactos com a U.Porto, a minha ligação efectiva concretizou-se apenas com a entrada, frequência e conclusão do curso de licenciatura em Educação Física, no então Instituto Superior de Educação Física (ISEF-UP) . Procurava assim, aos 18 anos, perseguir desígnios há muito recatadamente escondidos no meu íntimo: a concretização da minha paixão pelo desporto em geral e pela natação em particular e, por outro, a ideia de que, uma vez na universidade, a poderia exercitar através da procura de novos caminhos a que me conduziriam o saber, a investigação e a inovação.

Curiosamente, porém, este meu percurso inicial – dos 18 aos 23 anos – começou por se traduzir como numa dolorosa desilusão: o ISEF-UP não era, afinal, nada do que o meu primeiro contacto formal com a universidade me deixara imaginar. As instalações eram muito precárias, o corpo docente indiferenciado e formatado numa lógica de ensino secundário, com “sala de professores” e tudo… Havia algumas excepções, é claro; algumas mesmo verdadeiramente excepcionais! Mas aquilo ainda não era universidade! Não era um espaço de encontro permanente e recorrente, de tertúlia, debate e competição saudável e construtiva; a produção de conhecimento – fosse o que isso fosse – era mínima; a investigação empírica inexistente, muito menos a experimental. Laboratórios não existiam e a biblioteca, num canto da do ICBAS era, no mínimo, risível. A escola não era reconhecida fora de portas (de facto e literalmente!) e os docentes raramente eram chamados a partilhar o seu conhecimento noutros territórios e contextos, sobretudo no desportivo.

Lembro-me de, aí pelo meu 3º ano – à data como delegado de curso – ter pedido à então Comissão Instaladora do ISEF-UP, numa reunião, que acentuassem a introdução da formação científica e da investigação no currículo, ao que me foi respondido que não seria possível, porque “…quem faz investigação são os catedráticos e a escola o mais que tem são assistentes convidados” (sic.). Esta conversa constituiu a pior recordação dos meus tempos de estudante, mesmo porque hoje percebo ainda melhor quão afastada estava aquela pessoa da realidade académica!

Os meus primeiros dois anos de vida universitária foram, portanto, tudo menos memoráveis, pelo menos por bons motivos! Caí imediatamente numa atitude depressiva dos valores que perseguira, centrando todos os meus esforços noutros e noutras vivências, tão caras aos jovens adultos portugueses dos finais dos anos 70.

Com os anos 80, porém, a viragem anunciou-se. Uma viragem total! A agora minha mulher - e minha colega - cruzou-se no meu caminho vinda da Faculdade de Ciências, do curso de Física e, com ela, explorei pela primeira vez (e já tarde demais) os meandros da Biomecânica, que finalmente me encantou! Alguns docentes começaram os seus trabalhos de doutoramento (embora maioritariamente no estrangeiro), alguns outros, surpreendentes ao tempo, foram recrutados de novo e, finalmente, alguns dos excepcionais cruzaram-se com o meu percurso. Estavam criadas as condições para que se construíssem as melhores recordações da minha vida de estudante de graduação! Por um lado percebi que poderia ir mais longe do que o horizonte que a maioria dos docentes me abriam se, ao sentar-me sobre os seus ombros, não os lançasse por terra, ao mesmo tempo que alguns deles despertavam em mim a ambição maior de, pelo menos, me conseguir aproximar da sua fantástica visão do mundo e do desporto. A este nível foram exemplos maiores, a vocação pragmática, a clarividência e a base experimentalista do Prof. Doutor Ovídio Costa na cadeira de Fisiologia do Exercício (onde já podíamos explorar um pequeno laboratório) e, em verdadeiro complemento, a exuberância cultural da abordagem a um tempo filosófica, antropológica, biológica e realmente desportiva, na sua essência, proporcionada pelo Dr. Vítor Frade na cadeira de Teoria do Treino Desportivo. Era o tempo de me iniciar em Morin, Rosnay, Laborit, Benoist, Jacquard, Jacob, Sagan, Morris e tantos outros. Era o tempo de começar a perceber como funcionava o ser humano e o que fazia dele único; era o tempo de olhar ”A Tribo do Futebol” de uma outra perspectiva: diferenciada, complexa, dinâmica, aberta, mas incondicionalmente real e tangível – uma perspectiva universitária!

 

- Qual a importância da U.Porto no seu percurso profissional e de que modo foi de encontro às suas expectativas?

 

O meu percurso profissional iniciou-se praticamente na U.Porto, depois da graduação. Antes, logo depois do bacharelato, comecei a dar aulas nos ensinos preparatório e secundário, mais por obrigação do que por devoção, ao mesmo tempo que dava início às primeiras experiências como “Professor de Natação” nas escolas da Associação Cristã da Mocidade (ACM) e do CDUP. Não era ainda uma carreira que se desenhava, mas eram já dois vectores de investimento: o ensino e a natação.  

Na U.Porto comecei como Monitor do então ISEF-UP, ainda a cursar o 5º ano da licenciatura, para depois percorrer toda a carreira académica até que, em 2004, tomei posse como Professor Catedrático da agora Faculdade de Desporto (FADEUP). Pelo caminho, a unidade orgânica foi ainda crismada como Faculdade de Ciências do Desporto e de Educação Física (FCDEF-UP).

A bem da verdade – e quanto mais não fosse pela continuidade de 27 anos – a importância da U.Porto neste meu percurso profissional foi lapidar. Foi e é o lugar primeiro do meu exercício profissional!

A história pode-se contar de forma curta ou longa, mas opte-se por que solução se prefira, o resultado será a constatação de que esse foi o percurso de construção e afirmação da agora FADEUP, percurso que se funde com tantos percursos profissionais de mais do que uma geração de docentes, que os extravasa, claro está, mas que deles se alimentou e se alimenta ainda hoje.

Sem ser da primeira geração que assumiu a carreira académica como missão para a consolidação, crescimento e afirmação da instituição (essa foi composta pelos poucos docentes mais antigos que, a partir do estatuto de Assistente Convidado abraçaram a realização dos seus doutoramentos), fui, todavia, da primeira geração de “Assistentes Estagiários”: os primeiros que, se bem que contratados em anos diferentes, experimentaram juntos as angústias e os prazeres de ter de realizar os primeiros trabalhos de investigação construídos dentro de portas; os primeiros que, de braço dado com muito poucos dos mais velhos, iniciaram uma prática de vivência profissional na instituição; os primeiros que sentiram a necessidade e reivindicaram um gabinete de trabalho. Um pequeno gabinete para meia-dúzia, primeiro com uma velha máquina de escrever mecânica, depois com duas eléctricas, assustadoras! e, finalmente, com os dois primeiros Macs 512, os dois primeiros computadores da faculdade, que disputávamos entusiasticamente.

Ainda não havia catedráticos na instituição (o primeiro doutorado, o Prof. Doutor Jorge Bento, tinha acabado de ver o seu doutoramento reconhecido), mas agora não só se podia, como se devia fazer investigação! Porem… Como? Começando por onde? Com que meios e em que espaços? Com que orientação? Com que tradição?

Foi para ultrapassar estas dificuldades que voltei à Faculdade de Ciências, ao Laboratório de Física e ao espaço “caoticamente organizado” do Prof. Doutor Ferreira da Silva, ainda e sempre apaixonado pela natação como desporto, pela biomecânica da técnica de nado como interrogação maior e pelo custo energético da locomoção, como critério de ouro para a avaliação da qualidade do gesto – e, como não poderia deixar de ser, o reencontro com o Prof. Doutor Ovídio Costa tinha aqui um pretexto à medida. Foram os meus orientadores de Provas de Aptidão Pedagógica e de Capacidade Científica e, depois, do meu Doutoramento.

Nesta fase da vida da instituição foi decisiva a figura do novo Reitor, o Prof. Doutor Alberto Amaral. Acabou com o regime de instalação, marcou eleições e pautou a gestão da instituição pela normalidade regimental. Tive, então, o privilégio de presidir à primeira Assembleia Estatutária e à Assembleia de Representantes, já – ou ainda – como Assistente. Para celebrar a “revolução” que vivíamos, desenhei e propus a construção dos novos gabinetes dos docentes nas traseiras do “barracão”, que abririam espaço à generalização do exercício profissional na instituição, fisicamente falando. Senti-me quase arquitecto, mas sobretudo senti-me, de facto, a construir uma realidade de e com futuro. Foi o início de uma longa direcção da escola, que praticamente dura até hoje, em que os protagonistas maiores foram o Prof. Doutor Jorge Bento e o Prof. Doutor António Marques. Lembro-me de a direcção da faculdade e o Reitor nos juntarem a todos num fim-de-semana em Lamego, no Centro de Estágio de Desportistas. O Reitor jogou futebol com todos (ele, claro, de cachimbo e à baliza…); jogou, riu, comeu e bebeu, mas não deixou de lançar o repto indispensável à afirmação da escola: a necessidade de rapidamente todos nos doutorarmos, em Portugal ou no estrangeiro. Contaríamos com a sua ajuda!

Foi assim que alguns dos Assistentes Convidados se lançaram na carreira académica iniciando os respectivos processos de doutoramento, a par dos Assistentes, como eu, enquanto outros viam a sua ligação à instituição interrompida abrindo espaço a que novos Assistentes Estagiários fossem recrutados. Foram anos fantásticos de vida profissional! A instituição ressoava solidariedade, espírito de equipa, capacidade de trabalho, vontade de afirmação e…amizade. “Um por todos e todos por um” parecia ser o lema. Pensava-se a carreira de cada um em função da instituição; era por ela que se lutava, mais do que por cada um.

Defendi o meu doutoramento em Outubro de 1993. O auditório da Reitoria, então na Rua D. Manuel II, estava cheio. Cheio de familiares e amigos, mas sobretudo cheio da minha faculdade. Estavam todos lá! Como estávamos todos em tudo o que cada um fazia, de fileiras cerradas. Assim, mesmo se com pés de barro, amparávamo-nos uns aos outros e ninguém caía. Foi uma das fases mais fantásticas do exercício profissional que a U.Porto me proporcionou! Mas logo a seguir o André Costa morreu num brutal acidente de viação ao regressar de um estágio da Selecção Nacional de Saltos de Atletismo, onde tinha ido realizar uma avaliação biomecânica. Aí talvez nos tenhamos apercebido de que, mesmo bem encostados e amparados uns nos outros, não éramos invencíveis… E depois foi a Sandra e o Moutinho e a Adília… Os piores momentos que a U.Porto também me proporcionou! Mas valha-me a consciência de que foi assim, tão só porque, antes, me deixou cultivar a amizade destes e por estes e dos outros e pelos outros ainda vivos.

Pouco depois de me doutorar, a Faculdade mudou-se para as novas instalações. Foi um salto de gigante! Vindos do nada, com a nova casa passámos a dispor de espaços condignos, apetecíveis e adequados para o nosso exercício profissional. Tínhamos espaços desportivos e espaços laboratoriais; tínhamos espaços próprios, recato e privacidade; tínhamos uma biblioteca de que nos podíamos orgulhar; tínhamos espaços de convívio e espaços para os estudantes. Pudemos crescer! E crescemos. Eu cresci e envelheci junto com a faculdade, agreguei-me e tive o privilégio da Faculdade ter querido que eu chegasse a ser um dos seus catedráticos. Ficar-lhe-ei eternamente grato por essa distinção! Este foi o meu percurso profissional como universitário. Um percurso sofrido que a U.Porto me deu, mas que vendo bem nos dias que correm, superou todas as minhas melhores expectativas!

Realizei-me academicamente e continuo a vislumbrar trilhos que me levarão a novos espaços de realização, como certamente será o caso da criação do Laboratório de Biomecânica do Porto (LABIOMEP), espaço que me permitirá exercitar uma dimensão até agora relativamente adormecida da minha vida universitária: a dimensão de vivência inter-faculdades. Uma dimensão que, acredito, nos transportará ao futuro da vivência na U.Porto; uma vivência de conhecimento recíproco, de informação, de visibilidade e de iniciativas, espaços e procedimentos comuns.

 

Em paralelo com a minha carreira académica correu uma outra: a de treinador de natação. Durou o tempo quase todo da primeira! Começou como estudante do 5º ano da graduação, em 1982/83, numa muito bem sucedida experiência pedagógica em Treino Desportivo (os Centros Experimentais de Treino Desportivo, da lavra do Prof. Doutor António Marques, que passaram a levar, até hoje, os nossos estudantes ao terreno da realização desportiva para aprenderem o processo de treino in situ) e acabou 21 anos depois, em 2003/04, nos Jogos Olímpicos de Atenas. Começou e acabou bem e, espero, no momento certo; começou com uma das nadadoras que melhores memórias me legou (e que acabou minha colega e sempre minha amiga, a Orlanda Rego) e acabou com um recorde nacional absoluto pela mão do Luís Monteiro na melhor competição e no melhor cenário: uns Jogos Olímpicos disputados em Atenas. Começou quando acabava a minha vida de estudante e terminou quando começou a minha vida de catedrático. Talvez por esta curiosa coincidência cronológica, nunca vi a carreira de treinador como uma outra carreira. Via-a antes como a outra face de uma carreira una e indissociável. Uma carreira feita pela e a partir da universidade. Feita na universidade, mas também fatalmente nas instituições que tinham de inevitavelmente ser cruzadas. Uma carreira que, se foi de sucesso, se deve também a esses elos seguros que a fixaram indelevelmente à minha condição de universitário na U.Porto. Uma carreira integralmente partilhada pelos meus alunos de Centro de Treino, que percorreram, entre outros, todos os clubes por onde passei e todas as épocas que treinei. Cada treino foi sempre, por isso, uma aula prática; mas uma aula prática em contexto real, tantas vezes no melhor dos clubes e numa das mais desafiadoras actividades humanas: a de levar o nosso semelhante ao limite do praticável, à meta nunca antes alcançada, ao recorde, à vitória!

Este percurso, que me fez passar por realidades desportivas tão distintas como o CDUP, o Grupo Desportivo SOPETE, ou o Futebol Clube do Porto e a Selecção Nacional, foi, todavia, um percurso a um tempo voluntário, apaixonado, forçado e imperioso. Foi o caminho que fui percorrendo à procura de saber se seria possível inventar o êxito partindo exclusivamente dos bancos da universidade: do estudo, da reflexão, da investigação, da experimentação e da inovação. Mas partindo dos bancos da universidade, sem passado, iniciando do ponto zero, ou abaixo dele, uma vez que credor dos azedumes despertados no tecido desportivo por alguma arrogância anterior de outros ditos universitários, mesmo que completamente carecida de expressão em conquistas reais.

Eu sentia que precisava de averiguar se a universidade seria capaz de me dar TUDO, mesmo se eu não juntava os condimentos comuns: os de ter sido nadador, mediano que fosse; de ter experimentado a metodologia de diferentes treinadores experientes e com sucesso, fosse como nadador ou como treinador adjunto. Não vivi nada disso! Apenas uma paixão distante e permanente pela natação, onde construi os meus ídolos entre vizinhos (de facto!), mas sempre silenciosamente, com vergonha de ser absolutamente platónico.

Seria que a universidade, na sua generosidade magnânima, seria capaz de me proporcionar os instrumentos bastantes para vencer num mundo tão competitivo? Essa era a questão maior. A minha resposta, hoje, é um inequívoco e rotundo SIM! A universidade fê-lo e, porventura, dotou-me da capacidade maior que um treinador desportivo pode ter: a de usar da plasticidade comportamental e decisional que a independência intelectual lhe proporciona, sobretudo se menos tolhido pela incontornável e ainda que subliminar rendição às sequelas das experiências de sucesso vividas com outros, noutros momentos, como não raramente acontece com os que, antes, foram praticantes de elite.

Mas esta dupla existência impôs outras consequências: (i) ajudou a permitir que a U.Porto e a formação universitária fossam vistas com outros olhos na comunidade desportiva; (ii) ajudou a desenvolver na comunidade dos treinadores de natação portugueses, ou pelo menos em parte, a valorização da formação académica, que levou já muitos a concluírem as suas licenciaturas, mestrados e doutoramentos; (iii) ajudou a desenvolver entre a comunidade técnica uma apetência particular pela inovação e um sério reconhecimento do papel e da importância da investigação científica; (iv) ajudou a comunidade científica, nacional e internacional, a reconhecer a importância da vivência efectiva do processo de realização desportiva e (v) ajuda anualmente os nossos estudantes a perceber que a competência profissional não se constrói com a universidade e o quotidiano de costas voltadas, mas interagindo, reforçando-se e amparando-se reciprocamente.

Estou grato – e orgulhoso – por a U.Porto me ter proporcionado e me permitido uma vida dupla como a que vivi. Uma vida dupla que em qualquer das suas faces me levou a anos-luz das minhas expectativas; à realização dos meus sonhos mais despudorados. E estou fortemente convencido que todos saíram a ganhar! E, se no desporto, participar é que é importante, fazê-lo ganhando não será nunca pior. Pois não?

 

 - Como avalia o papel desempenhado pela Universidade no seio da comunidade (cidade, região, país) e de que modo ele se poderá projectar para o futuro, com especial enfoque no ensino, promoção e investigação na área do Desporto?

 

O esforço de modernização a que a U.Porto se tem consagrado nos últimos anos tem trazido, como consequência natural, também um crescendo da notoriedade do papel efectivo que vem desempenhando no seio da comunidade, desde a cidade ao país, passando pela região em que se insere. Não tem sido apenas no espaço das instalações físicas que esta revolução se tem processado, mas igualmente no próprio conceito de vivência universitária, sendo cada vez mais nítidas as preocupações com a abertura e a prestação de serviços à comunidade, mas também com a auscultação do “pulsar” das tensões e necessidades emergentes a que a instituição possa dar resposta. A “torre de Babel” tem-se vindo a fazer de cristal, abrindo-se ao mundo, deixando que a espreitem, a observem, a dissequem, mas deixando também que, à transparência, e pela transparência, de dentro se possa ver também com mais nitidez as expectativas que a sociedade tem, ou se perspectiva que venha a ter, em relação ao desempenho da universidade.

Têm sido múltiplos os exemplos do que acabo de sublinhar, mas por serem variados não devem tolher a U.Porto no esforço de os multiplicar. Antes pelo contrário! Este deverá continuar a ser um dos vectores preferenciais de investimento institucional no futuro.

A Mostra da U.Porto, a Universidade Júnior, a UPTEC e o esforço de catalisação das iniciativas empresariais de inspiração universitária - através de Spin-offs e Startups vocacionadas para o mercado interno e externo -, e outras soluções de partilha e transferência de conhecimento, são bons exemplos desta nova abertura. Mas outras iniciativas, talvez menos visíveis, como a preocupação com a progressiva adaptação dos planos de estudo dos diferentes níveis de formação às necessidades percebidas no tecido social, bem como com as vocações ancestrais do nosso povo – como o mar e a terra -, são também merecedoras de realce. A este respeito basta lembrarmo-nos da crescente preocupação da U.Porto em lançar fóruns de discussão de alguns dos seus planos de estudo em sede de auscultação dos mercados consumidores das competências dos seus formandos – e de outros mercados que os possam vir a integrar – ou da promoção da respectiva conformação às exigências da formação profissional em domínios muito concretos, como é o caso do dos treinadores desportivos.

A par destes esforços, três dos grandes vectores de evolução da U.Porto nos últimos anos têm sido críticos para a edificação e consolidação do seu papel social: (i) por um lado os esforços de internacionalização, consolidando canais mais tradicionais, reforçando os emergentes e abrindo outros; (ii) por outro lado a aposta nas novas tecnologias, no ensino interactivo e à distância, no e-learning e na investigação numérica e computacional e (iii) finalmente, os esforços de modernização das estruturas laboratoriais e o reforço da vocação científica da instituição, com um claro apelo ao aumento da produtividade científica e dos vectores de inovação e desenvolvimento em todos os domínios, único caminho reconhecido como potenciador da afirmação da U.Porto no seio das universidades europeias e mundiais. Esta tem sido, claramente, uma aposta ganha, como traduz a subida progressiva da U.Porto nos mais diferentes rankings, mesmo se estamos ainda longe de atingir a capitação desejável dos indicadores de qualidade e, sobretudo, a sua distribuição equitativa pelas diferentes faculdades.

No futuro, os esforços desenvolvidos até aqui nos domínio referidos terão de ser ainda mais reforçados e generalizados à comunidade universitária, nomeadamente no espaço do desporto. A Faculdade de Desporto tem vindo, através destes anos, a partilhar este esforço de modernização da U.Porto. O ensino baseado na ciência, de base laboratorial por exemplo, é uma realidade em diferentes domínios, mas a forte ligação ao tecido desportivo tem vindo também a ser acarinhada e reforçada (quase sempre), não como alternativa compensatória ao primeiro, mas muito antes pelo contrário, como solução de continuidade, de extensão, de transferência de conhecimento e competências, de prestação de serviços, e, sobretudo, de afirmação da qualidade dos  seus docentes e dos profissionais formados nos seus bancos. Nesta medida tem sido, inequivocamente, uma batalha continuadamente ganha. Cada vez mais nos podemos confrontar com o claro e crescente reconhecimento que, finalmente, a FADEUP merece no território das mais variadas modalidades desportivas, talvez sobretudo nas modalidades ditas tradicionais, mas também noutras, algumas emergentes e outras efémeras e talvez por isso carecidas de espaço de afirmação do conhecimento consolidado. Este reconhecimento e a séria implantação dos nossos docentes e estudantes nas estruturas técnicas dispersas pelo país, incluindo as várias selecções nacionais de Portugal tem vindo, curiosamente ou talvez não, a reverter de forma surpreendentemente favorável nos créditos que a instituição reúne nos espaços da investigação científica internacional, onde, em algumas contextos desportivos, o acesso a praticantes e técnicos de elite enquanto sujeitos de investigação, tem contribuído para o prestígio e afirmação da FADEUP e da U.Porto.

As infra-estruturas laboratoriais que sustentam o ensino são as mesmas que progressivamente vêm alimentando os esforços de fomento da investigação científica e de prestação de serviços na e pela faculdade. Este esforço tem permitido situar a FADEUP no centro do espectro de dispersão dos indicadores de produtividade pelas diferentes unidades orgânicas da U.Porto, mas acreditamos que com tendência a crescer e a aproximar-nos cada vez mais das mais produtivas. Neste contexto vale sublinhar que o “caminho das pedras” nem sempre é fácil de aprender, desde logo porque parece ir colidindo com algumas das tradições mais enraizadas da nossa academia; mas cada vez mais os autores vão privilegiando os periódicos indexados e de circulação internacional, com factor de impacto, às actas de congressos, aos livros e artigos de ensaio e opinião e às publicações técnicas. Não que estas tipologias de produção e difusão de conhecimento e cultura não sejam de grande importância e não mereçam o nosso grande carinho, mas tão só porque os vectores prevalecentes de avaliação do desempenho institucional e a efectiva produção de conhecimento, verificado, consolidado, articulado e, por isso, efectivamente transferível com valor acrescentado, se faz pela primeira via. No entanto, este esforço de modernização e compaginação com as exigências externas a que estamos e estaremos cada vez mais sujeitos, deverá ser sabiamente equilibrado com a não depreciação de iniciativas de produção didáctica e de outras soluções de tradução e transferência de conhecimento para a comunidade, nomeadamente também em saudável e urgente articulação com o culto e preservação da língua portuguesa.

Apesar de apreciar com orgulho e de forma optimista a trajectória da FADEUP e do desporto na U.Porto, não posso deixar de considerar que os esforços de reforma e adequação do perfil de alguns dos docentes, de recrutamento dos novos valores emergentes, de revisão e actualização dos diferentes planos de estudo e de valorização dos mecanismos de abertura e relação com o exterior, têm sido, apesar de tudo, menos expressivos do que o desejável. Estou certo, porém, de que depois de toda a tormenta associada à implementação do Processo de Bolonha, à reforma do enquadramento regulamentar da actividade e à nova certificação dos cursos oferecidos, essas serão prioridades da instituição, que reforçarão ainda mais, e em larga medida, a nossa capacidade de resposta, a qualidade dos nossos estudantes de graduação e pós-graduação, a qualidade dos serviços prestados, a excelência das sinergias estabelecidas, o prestígio da instituição e a qualidade do desporto português.

 

 

- Que caminho deverá ser percorrido para afirmar cada vez mais a Universidade no contexto regional, nacional e internacional? Como prevê o papel de uma Universidade do Porto daqui a 100 anos?

 

Na linha do que deixei dito, não me restam dúvidas de que devemos continuar a trilhar os mais inovadores caminhos por que decidimos enveredar nos anos mais recentes, nomeadamente em dez eixos fundamentais: (i) o da promoção da investigação científica e do ensino laboratorial, (ii) o do ensino em contexto de desempenho profissional, fomentando a percepção, a aproximação e a acomodação às tensões do tecido produtivo, (iii) o do ensino à distância e da formação ao longo da vida; (iv) o da valorização das iniciativas de prestação de serviços e de transferência de conhecimento, (v) o da valorização das novas tecnologias, (vi) o do efectivo conhecimento recíproco das instituições e das pessoas da U.Porto, estimulando a criação de um real sentimento de afiliação, (vii) o da modernização do parque de instalações e meios com ênfase na valorização das sinergias e na atenuação das redundâncias internas; (viii) o da continuada adequação dos planos de estudos às tensões do mercado, (ix) o do favorecimento dos mecanismos de auscultação daquelas e (x) o da valorização da oferta de serviços e iniciativas de alcance europeu e mundial. Mas temos de fazê-lo continuando a renegar o atavismo e o fatalismo da periferização como traços e fado do Português.

Temos, de facto, de percorrer estes caminhos, mas temos de ter consciência de que temos de o fazer a velocidades concorrenciais. Quer isto dizer que temos de o fazer melhor e mais depressa do que os nossos congéneres – os pares com que incontornavelmente colaboramos e concorremos; e isso não é tarefa fácil! Mas se o fizermos e o fizermos bem, menos como frete, mas como missão, mas sobretudo como paixão, então daqui a 100 anos a U.Porto terá cumprido os seus desígnios, será uma universidade de investigação, uma universidade encastrada e indispensável à sociedade que serve, uma universidade prestigiada; seguramente não uma entre as 100 melhores da Europa, mas uma entre as 100 melhores do mundo. No fundo será uma universidade de inspiração olímpica já que o que um desportista persegue, nuns Jogos Olímpicos, é, entre 100 – ou pouco mais – de entre os melhores do mundo, conquistar um dos 3 primeiros lugares – as ambicionadas medalhas!

 

- Mensagem alusiva aos 100 anos da Universidade do Porto.

 

É o meu mais profundo desejo que ao celebrar o seu centésimo aniversário, a U.Porto, orgulhosa do seu passado, saiba concentrar as suas energias na missão de a construir, nos próximos 100, à imagem do legado que nesse tempo queremos ver consolidado: o de uma instituição dinâmica, moderna e competitiva à escala mundial, que vaporize e honre o seu país, que o estimule e o alimente.

 
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