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Gaspar Martins Pereira: "Desejo uma Universidade partilhada por toda a cidade"

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O Olhar de...

 - Historiador e investigador português (mais informações)

- Professor catedrático do Departamento de História e de Estudos Políticos e Internacionais da Faculdade de Letras da Universidade do Porto

- Coordenador do CITCEM – Centro de Investigação Transdisciplinar «Cultura, Espaço & Memória».

- Antigo estudante da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde completou a Licenciatura em História (1975-1980) e o Mestrado em História Moderna (1983-1986)

- Como é que teve origem e se tem vindo a desenvolver a sua ligação à Universidade do Porto? Que principais momentos guarda da sua experiência enquanto estudante/professor da U.Porto?

 

Entrei a contragosto na Universidade do Porto, no Outono ainda quente de 1975, quando me matriculei no curso de História da Faculdade de Letras. Tinha concluído, no ano anterior, o liceu, pensando matricular-me na Universidade de Coimbra, para seguir Direito, curso que, nessa altura, não existia no Porto. Mas, em 1974, o Ministro da Educação encerrou as matrículas no 1º ano nas universidades e tive de esperar pelo ano seguinte. Entretanto, tinha começado a trabalhar, o que me obrigou a abandonar a ideia do Direito e a optar por um curso no Porto.

A minha condição de trabalhador-estudante não me permitia assistir à maior parte das aulas e o tempo que tinha para estudar era reduzidíssimo. Mas, talvez por isso, criei excelentes amizades com alguns colegas que iam regularmente às aulas e me forneciam apontamentos e, sobretudo, com o pequeno grupo de trabalhadores-estudantes que se juntava, à noite e nos fins-de-semana, em alguns cafés do Porto, como o Estrela, o Aviz, o Guanabara, o Diu ou o Vasco da Gama. Estudávamos, trocávamos livros e discutíamos política. Enquanto estudante, as minhas relações com a Universidade foram relativamente distantes, limitadas a uma ou outra aula, aos exames ou entregas de trabalhos e às questões burocráticas na Secretaria. De resto, as condições eram péssimas. No primeiro ano lectivo, as aulas funcionaram, transitoriamente, no Seminário de Vilar, em salas a abarrotar. Havia uma corrida às cadeiras e, quase sempre, alunos de pé ou sentados no chão. As condições melhoraram um pouco, a seguir, com a passagem para o Campo Alegre. Mas também aí, à excepção de um ano em que estive desempregado, raramente me podia dar ao luxo de frequentar as aulas. Só voltei a contactar com a FLUP em 1983, como estudante de Mestrado em História Moderna. Nessa altura, tive de conciliar o trabalho de Mestrado com a docência no ensino secundário (que exercia desde 1978).

Entre 1984 e 1987, passei a estar ligado também como docente à Universidade do Porto, sendo contratado como assistente estagiário pela Faculdade de Economia. Tive a sorte de encontrar aí, no grupo de Ciências Sociais, pessoas humanamente extraordinárias, a começar pelos professores Armando de Castro e José Madureira Pinto, que me ajudaram imenso. Em 1987, a abertura de um concurso para assistente de História Contemporânea, na FLUP, fez-me pensar duas vezes. Por um lado, usufruía de um ambiente científico e humano excepcional, em Economia. Por outro, queria evoluir no domínio da História e sabia que me seria mais fácil fazê-lo na FLUP. Ainda hoje, não sei explicar o que me fez decidir. O certo é que concorri e fiquei em Letras. Até hoje.

Nessa altura, ao nível da investigação, continuei dividido entre os estudos da história da família,  e os estudos de história da vinha e do vinho, em que já trabalhava, desde o início dos anos oitenta. Acabei por me decidir pela primeira temática para a realização das provas de doutoramento (1993), tendo colaborado na formação de um novo centro de investigação, o CEPFAM – Centro de Estudos da População e Família (actual CEPESE – Centro de Estudos da População, Economia e Sociedade). Mas continuei a publicar diversos trabalhos de história da vinha e do vinho, no âmbito do CENPA – Centro de Estudos Norte de Portugal-Aquitânia, onde beneficiei da orientação e amizade do professor François Guichard.

Após o doutoramento, decidi avançar, em colaboração com o professor Francisco Ribeiro da Silva, para a criação de um novo centro de investigação no domínio da história da vinha e do vinho, o GEHVID – Grupo de Estudos da Viticultura Duriense e do Vinho do Porto, que coordenei até 2001.

Em 2007, face às orientações da política científica nacional, que aconselhavam uma reorganização das unidades de I&D, o professor Jorge Alves, então director da FLUP, promoveu um alargado debate, no sentido de se criar uma grande plataforma de investigação na área das Humanidades. Foi desse debate que surgiu, em Maio desse ano, o CITCEM – Centro de Investigação Transdisciplinar «Cultura, Espaço & Memória», em que se reuniram diversas unidades anteriores e mais de uma centena de investigadores, já que vários colegas e unidades da Universidade do Minho decidiram aderir ao novo centro. Em pouco tempo, o CITCEM atraiu mais de três centenas de investigadores de História, Estudos Culturais e Literários, Arqueologia, História da Arte, Demografia Histórica e outras áreas. Apesar de estar ainda a dar os primeiros passos, o CITCEM tem constituído uma experiência estimulante, tanto nas actividades de investigação e de articulação com a formação avançada como nas acções de internacionalização e de relação com a comunidade.

 

- Qual a importância da U.Porto no seu percurso profissional e de que modo tem ido ao encontro das suas expectativas?

Embora tivesse sido uma segunda escolha, a ligação à U.Porto acabou por determinar o meu percurso profissional de professor e investigador de História, ao longo de mais de três décadas. Desde 1984, em que ingressei na carreira docente universitária, encontrei na U.Porto as condições necessárias de liberdade para desenvolver o meu trabalho. E, simultaneamente, tem-me propiciado o encontro e o diálogo com inúmeros colegas do país e do estrangeiro. Esses contactos têm sido essenciais na minha formação académica e no percurso que venho trilhando.

No entanto, fora do plano pessoal, creio que há muito a fazer na U.Porto para um desenvolvimento equilibrado das suas diversas áreas. Nos últimos anos, devido a um conjunto de circunstâncias (aplicação cega da «ratio» estudantes/docentes, desfavorecendo, claramente, os cursos de Humanidades, diminuição significativa do número de docentes, em paralelo com o crescimento do número de estudantes de pós-graduação, etc.), as condições de trabalho em certos cursos, como os de História, têm vindo a degradar-se, exigindo dos docentes um enorme esforço, tanto na carga lectiva como nas orientações de teses, com sacrifício da sua actividade de investigação, para já não falar nas muitas horas roubadas à vida familiar e social. Mas acredito que se trata de uma situação transitória, decorrente de condições conjunturais desfavoráveis às Humanidades, agravadas com a aplicação do modelo de Bolonha.

 

- Como avalia o papel desempenhado pela Universidade no seio da comunidade (cidade, região, país) e de que modo ele se poderá projectar para o futuro?

Se olharmos para trás, para o que era a Universidade há poucas décadas, facilmente percebemos uma grande evolução. O saber universitário tornou-se mais aberto à comunidade, em todos os domínios. Mas há ainda um longo caminho a percorrer e os passos têm de ser dados, simultaneamente, pela Universidade e pela comunidade, para se alcançarem níveis razoáveis de eficácia social do conhecimento. Em todos os domínios do saber. Infelizmente, se há áreas, como as tecnologias, a gestão ou a saúde, em que têm vindo a ser dados passos significativos, gerando múltiplas e boas experiências, outras áreas são olhadas ainda com a suspeição de constituírem gastos supérfluos, onde se pode poupar em época de crise. As Humanidades estão, em grande parte, nesta última situação. E, no entanto, a reflexão e a construção do saber sobre o território, a memória e o património (desde a língua portuguesa aos testemunhos arqueológicos ou históricos) são essenciais para a formação da nossa identidade (seja da cidade, da região ou do país) e para a nossa afirmação no mundo. A Universidade tem participado, activamente, nesta reflexão e na construção de conhecimento nestes domínios, nitidamente mais desvalorizados do que as tecnologias, a gestão ou as ciências da saúde, mas por onde deverá passar, inevitavelmente, o nosso futuro. Creio, de resto, que as diversas áreas de conhecimento só ganharão em esbater fronteiras e assumir uma atitude transdisciplinar, de diálogo activo, para um novo humanismo científico, tão necessário no mundo actual, onde o progresso técnico e económico nem sempre se traduz em mais felicidade e bem-estar.

 

- Que caminho deverá ser percorrido para afirmar cada vez mais a Universidade no contexto regional, nacional e internacional? Como prevê o papel de uma Universidade do Porto daqui a 100 anos?

A Universidade pode e deve continuar a afirmar-se como plataforma de formação e difusão de conhecimento, a nível regional, nacional e internacional. De preferência, por esta ordem. Por vezes, a desejável internacionalização é entendida, a meu ver, de forma errada, com o complexo provinciano de que «tudo o que é internacional é bom». Penso que a qualidade do trabalho científico, seja em que área for, não pode estar sujeita a essa atitude que tende a valorizar mais um mau artigo publicado numa revista estrangeira que um bom artigo publicado numa revista nacional. Na apreciação de projectos submetidos à FCT, na classificação de candidaturas a bolsas, nos «rankings» que se multiplicam, usa-se e abusa-se desse falso critério de qualidade. A natureza do conhecimento é a sua universalidade, o que nada tem a ver com a submissão ao que vem de fora, antes apela ao diálogo e ao confronto de saberes.

Creio que, para um desenvolvimento harmonioso da sua missão, a Universidade deverá estimular maior equilíbrio e coesão interna, maior aposta na articulação entre a docência e a investigação, maior integração nas redes internacionais (sem esquecer a importância da lusofonia) e maior participação em projectos ancorados na comunidade regional. As estratégias a seguir deverão evitar, a meu ver, as receitas fáceis e, sobretudo, a aplicação das mesmas receitas para todas as áreas científicas, ignorando a sua especificidade. Acima de tudo, penso que a Universidade deverá proteger-se como espaço de liberdade e autonomia de produção e de difusão de conhecimento, face às pressões mais ou menos subtis dos poderes políticos e económicos para influenciarem ou conduzirem as estratégias a seguir.

Não posso prever o que será a U.Porto daqui a 100 anos. Mas posso desejar que seja mais UP, partilhada por toda a cidade, como uma instituição aberta a todos os cidadãos, o que supõe, claro, uma sociedade menos desigual no acesso ao conhecimento.

 

- Mensagem alusiva aos 100 anos da Universidade do Porto.

Um século é relativamente pouco tempo na história de uma Universidade. Mas é motivo suficiente para celebração, sobretudo quando esses cem anos representaram um esforço contínuo para a construção de uma verdadeira Universidade que teve de se fazer a si própria. Pode dizer-se que, em 1911, a criação da U.Porto pelo novo poder republicano significou pouco mais que uma mudança de designação e estatuto das instituições de ensino superior da cidade, como a Escola Médico-Cirúrgica e a Politécnica, herdadas da Monarquia Constitucional e que já tinham alcançado grande prestígio científico. Por isso, a U.Porto ficou, então, confinada a uma Universidade parcelar, amputada de áreas-chave do conhecimento. Mas, desde a sua criação, a U.Porto nunca desistiu de se bater pelo alargamento a novos domínios científicos, o que não foi fácil, dada a pressão política exercida por Coimbra e, sobretudo, por Lisboa. A Faculdade de Letras, criada em 1919, foi extinta no final dos anos vinte e só reapareceria no início da década de sessenta, altura em que foi criada, também, a Faculdade de Economia. Desde 1974, uma conjuntura mais favorável à descentralização do sistema de ensino superior em Portugal permitiu à U.Porto criar novas Faculdades e novos cursos, como Psicologia, Ciências do Desporto, Jornalismo, Ciências da Informação, Sociologia, Direito, etc., tornando-se a maior Universidade portuguesa, com um prestígio reconhecido. E, ao mesmo tempo, a U.Porto tem demonstrado a capacidade para se adaptar a novas formas de ensino e de investigação, para se alicerçar na sua região, para cruzar saberes com outras Universidades do país e do mundo. Neste centenário da nossa Universidade, o que me parece ser de comemorar é essa capacidade de alargar os horizontes do conhecimento e de se abrir à região e ao mundo.

 
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