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Carlos Lopes: “A Universidade terá de ser sal para mudança”

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O Olhar de...

- Medico e professor universitário português

- Professor Catedrático do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (desde o ano 2000). Foi professor da Faculdade de Medicina entre 1983 e 2000.

- Director do Mestrado em Oncologia e do Programa Doutoral em Patologia e Genética Molecular do ICBAS.

 - Antigo estudante da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) com Licenciatura (1966) e Doutoramento (1988) em Medicina.

 

- Como é que teve origem e se tem vindo a desenvolver a sua ligação à Universidade do Porto? Que principais momentos guarda da sua experiência enquanto estudante / professor da U.Porto?

 

A minha ligação à Universidade do Porto data de Outubro de 1959, altura em que me matriculei na Licenciatura em Medicina, na Faculdade de Medicina. Foi no ano em que a Faculdade se instalou no Hospital de S. João, na Asprela, inaugurando aí o polo que não parou de crescer até hoje, primeiro com a Faculdade de Economia, a Escola de Enfermagem, a Faculdade de Medicina Dentária e com as Ciências da Nutrição e, mais recentemente, em crescimento explosivo, com a Faculdade de Engenharia e a Faculdade de Ciências da Desporto e Educação Física. A ligação então estabelecida com a U.Porto foi-se fortalecendo ao longo do tempo, não panado de crescer. Enquanto estudante, a influência da Universidade foi decisiva na formação da pessoa que sou, com repercussões em toda a minha personalidade, na suas componentes profissional, académica, científica e de cidadania. Foi na U.Porto que aprendi os valores da liberdade e da democracia através da participação activa na luta contra a ditadura do Estado Novo integrado no movimento associativo que então se iniciava no Porto. Também na UP, integrado na JUC, aderi aos valores do amor, da solidariedade e do ser cristão adulto  veiculados pelo Vaticano II do saudoso Papa João XXIII, que hoje continuo a viver e a aprofundar; o trabalho com o saudoso bispo D. Domingos Pinho Brandão, com o frei Bernardo e com o frei Bento Domingues, bem como os Encontros dos Universitários Católicos no Colégio do Rosário e campos de férias em Singeverga moldaram decisivamente o meu ser, o meu pensar, o meu sentir e o meu actuar. A nível profissional e académico a UP ensinou-me tudo, sobretudo o método de estudar e de aprender, de ser médico e de ser professor. Aliás, as  três vertentes da minha formação coexistem como se fossem três faces da mesma moeda, que não existe se uma delas não estiver presente: praticar medicina, ensinar medicina e investigar na área da medicina. Foram figuras determinantes, nessa minha formação médica de estudante, o Professor Joaquim Bastos e o Professor Daniel Serrão.

Após a licenciatura em Medicina em 1966, cumpri o serviço militar obrigatório em Angola, terra onde nascera. Por isso aí fiquei, nos então Estudos Gerais Universitários de Angola, onde trabalhei de muito perto com gente da U.Porto: o Professor Nuno Grande, o Professor João Gil da Costa e o Professor António Cadete Leite, entre outros. Contudo o cordão umbilical à UP permaneceu vivo e, porventura, mais forte. A FMUP continuou a ser a minha referência e a fonte de toda a inspiração para novas vidas. O contacto então tido com as outras Escolas existentes, nomeadamente as Faculdades de Medicina de Lisboa e de Coimbra, foi também importante na afirmação da minha personalidade académica, profissional e moral, e ajudou a fortalecer as minhas raízes, a U.Porto.

Angola tornou-se independente e eu continuei em Luanda, na Universidade Agostinho Neto, à frente da Faculdade de Medicina, tendo aí permanecido até 1983. Foi na FMUP, através dos Professores Daniel Serrão e Sobrinho Simões, que procurei sempre apoio e referências para a minha vida académica e profissional. Tive então oportunidade de realizar em Luanda todo o trabalho clínico e laboratorial para a minha tese de doutoramento, sob orientação directa do Prof. Manuel Sobrinho Simões. Posteriormente, em 2000, fiz a agregação na U.Porto e, naturalmente, na FMUP, a minha Escola.

De 1983 a 2002 fui anatomopatologista no IPO do Porto e Professor Convidado da FMUP, integrado no grupo da Patologia. Nessa altura, após a jubilação do Prof. Oliveira Torres, transferi-me para o ICBAS, onde me encontro ligado ao Departamento de Patologia e Imunologia Molecular. No ICBAS, assumi a responsabilidade pelo ensino das disciplinas de anatomia patológica e biopatologia e tive oportunidade de participar no desenvolvimento dos cursos de pós-graduação, nomeadamente de Mestrado e de Doutoramento. Sou, assim, Director do Mestrado em Oncologia e do Programa Doutoral em Patologia e Genética Molecular. Sou também Director do Mestrado Integrado em Medicina e integro a Comissão Executiva para a concretização do novo curso de medicina através do consórcio entre a Universidade de Aveiro e o ICBAS, o que é um novo e estimulante desafio para mim.

 

- Qual a importância da U.Porto no seu percurso profissional? De que forma foi de encontro às suas expectativas?

 

Provavelmente a resposta a esta questão está parcialmente contida na resposta anterior. Posso, por isso, aproveitar o momento para reforçar o quanto a U.Porto foi de influência positiva decisiva em toda a minha vida como pessoa, como médico, como professor, como pai de família, como cidadão. Foi na U.Porto que aprendi um conceito que tenho repetido em muitas oportunidades: a Universidade é muito mais que uma instituição com pessoas, edifícios, e um quadro de pessoal de grande qualidade científica e técnica. A Universidade é o saber e este, mais do que um conhecimento adquirido, é a procura constante de uma verdade que não está no fim do caminho mas sim nos novos caminhos que se abrem ao virar da curva. Portanto onde existe saber profissional, científico e técnico de muita qualidade e, sobretudo, onde se procura, onde se sabem fazer perguntas e investigar as melhores respostas, aí é Universidade. Mesmo nos locais que institucionalmente e legalmente não sejam a Universidade formal. Esta perspectiva de vida encontrei-a muito bem personalizada numa pessoa, a Professora Maria de Sousa que é, ela própria, a Universidade sem paredes.

Toda esta preocupação de vida profissional de qualidade, de dúvida e de inquietação pela procura da verdade,  cresceu e aperfeiçoou-se em mim na UP. Assim, quando estava a trabalhar no IPO interessei-me pela criação e desenvolvimento de uma atitude de investigação e ensino, para além do trabalho assistencial. Esta ideia veio a concretizar-se numa Escola de Oncologia e num Centro de Investigação em Oncologia, que têm qualidade bem reconhecida pelos pares. Ali está, portanto, a U.Porto, mesmo que formal e juridicamente tal possa ainda não existir. Foi este mesmo espírito da U.Porto que presidiu a que em Angola, em condições de trabalho muito difíceis, tivesse sido possível trabalhar e fazer Escola nas três vertentes que integram a vida académica: serviço profissional de qualidade, ensino e investigação.

 

- Como avalia o papel desempenhado pela Universidade no seio da comunidade (cidade, região, país) e de que modo ele se poderá projectar para o futuro?

 

Esta pergunta é interessante e daria para uma mesa redonda de um dia. A Universidade do Porto tem feito um grande esforço para se inserir "na cidade" que a recebe como agente activo de progresso, de desenvolvimento e de melhoria das condições de vida de todo o povo (e não apenas da população universitária). Não falo do serviço prestado pelos quadros superiores que a Universidade forma na comunidade. Falo apenas no serviço prestado pela Universidade enquanto instituição em todos os sectores que constituem a vida de uma cidade, de uma região: nas artes, na filosofia, na ciência, na prestação de cuidados médicos, na melhoria da qualidade de vida das pessoas. A U.Porto tem a sua imagem de marca na arquitectura da cidade e, cada vez mais, no seu desenvolvimento industrial e tecnológico. O Porto é uma cidade de ciência por todos reconhecido e essa ciência vem da Universidade através das suas Escolas tradicionais e através dos novos Institutos de investigação, quer os da área da engenharia e informática, quer os da área da gestão e economia e, permitam que o sublinhe com alguma vaidade, na área das ciências da saúde onde o IBMC, o IPATIMUP e o INEB são responsáveis por parte significativa da produção científica portuguesa e fazem do Porto o melhor polo nacional de investigação neste importante sector da vida. É, aliás, cada vez maior a ligação a das empresas à Universidade, o que confere ao saber toda a sua dimensão de bem ao serviço das pessoas.

O momento difícil que Portugal vive precisa de muitas perguntas e da procura de muitas respostas para se encontrar o caminho. E esse é, porventura, o maior desafio que se levanta hoje à Universidade. Ela não pode passar ao lado da "crise" e não pode "embarcar"  na aceitação passiva da "verdade revelada", como se fosse absoluta, do saber instituído. A Universidade terá de saber investigar para encontrar soluções adequadas e certeiras. Terá de ser sal para mudança. As Escolas de gestão, de economia e de finanças têm que exceder-se em qualidade para servir melhor a cidade e o país.

 

- Que caminho deverá ser percorrido para afirmar cada vez mais a Universidade no contexto regional, nacional e internacional? Como prevê o papel de uma Universidade do Porto daqui a 100 anos?

 

De uma maneira muito simples e directa eu direi que o caminho que a Universidade tem de percorrer assenta na tríade: serviço, investigação e transmissão do conhecimento. O serviço deve ser olhado como atitude cultural, honestidade e compromisso. A Universidade tem de contribuir para que todas as pessoas, a começar pelos universitários, integrem na sua vida individual e colectiva o valor do trabalho, da seriedade e do compromisso. É a luta contra o espírito do "desenrasca" em favor do rigor e da seriedade.

Através da investigação será fortalecida curiosidade, a profundidade do conhecimento, a procura contínua da verdade, o aperfeiçoamento permanente da qualidade, encarada com factor de progresso e de mudança e não como obrigação inatingível e geradora de frustrações.

A transmissão do conhecimento surge como a generalização da Universidade a todos que, com ela  e através dela, terão acesso a uma Escola de formação contínua e, em consequência, a uma aprendizagem dinâmica. Daqui a 100 anos a Universidade do Porto verá aperfeiçoada a sua vocação universalista e estenderá os seus braços ao universo empresarial, aos serviços, às artes e à cultura, não numa lógica simplesmente economicista e de alguma burocracia oportunista, como em parte acontece hoje, mas com um profundo sentido de serviço e aperfeiçoamento do binómio ensino/aprendizagem, ao alcance fácil de todos. Será também o espaço privilegiado de convívio e de sã convivência, de troca de ideias e de aproximação aos outros povos de todos os continentes. Creio não exagerar no meu optimismo ao dizer que a Universidade será, no futuro, um dos principais instrumentos para a conquista e consolidação da Paz duradoura, assente na universalidade do conhecimento e no progresso dos povos. No que à UP diz respeito, ela será um dos principais instrumentos de consolidação da língua portuguesa em todos os cantos do mundo onde a comunidade lusa viva e trabalhe.

 

- Mensagem alusiva aos 100 anos da Universidade do Porto.

 

Um centenário deve ser comemorado com amor, com alegria e com muita esperança. É para mim um privilégio estar aqui nesta comemoração feliz e, sobretudo, poder afirmar com verdade e convicção que me identifico com a U.Porto, à qual pertenço para todo o sempre, no que ela tem de melhor e de menos bom. O progresso, a verdade e o serviço são os caminhos que continuaremos a percorrer, ontem, hoje e amanhã.

 
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