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Beatriz Pacheco Pereira: "100 anos só é muito tempo se não se tiver o futuro pela frente"

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O Olhar de...

- Escritora, escultora e especialista de cinema portuguesa

- Fundadora e Directora do Festival Internacional de Cinema do Porto - FANTASPORTO

- Antiga Estudante da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, com Licenciatura em Filologia Germânica (especialização em Literatura Inglesa)

- Membro do Conselho Geral da Universidade do Porto

 

- Como é que teve origem e se tem desenvolvido a sua ligação à Universidade do Porto? Que principais momentos guarda da sua experiência enquanto estudante da U.Porto?

Antes de mais, fiz parte do 1º ano da Licenciatura de Filologia Germânica no Porto. Antes só havia em Lisboa e em Coimbra, cidade esta onde ainda estive como aluna voluntária poucos meses. Devido a problemas de saúde abandonei Coimbra (com boas recordações, diga-se) pelo Porto e foi aqui, na minha cidade natal, que me licenciei. Mas não se pode dizer que foi fácil o percurso. Três mudanças de edifício em cinco anos, um incêndio no que é agora o edifício do ICBAS onde “perdi” alguns registos de notas de cadeiras feitas, o 25 Abril pelo meio, saneamentos de professores, muitas reuniões de contestação. Mas na parte académica, tudo foi mais calmo. Bons professores muitos, outros (dois ou três) muito, muito maus. Mas como já estava a dar aulas no Ensino Secundário desde os 18 anos ( à custa do Curso do Instituto Britânico),  não fui extremamente assídua às aulas. Ia quase sempre a exame final, o que me prejudicou um pouco. Eram 2, 3 rapazes para uma centena e meia de mulheres. Lembro-me de que a liberdade de escolha das matérias era razoável e por isso fiz muitas cadeiras de Literatura  e História de Arte. A minha paixão era a Literatura Inglesa. Saí  da Universidade com uma licenciatura que dizia no título (Anglística), assim, entre parenteses. Ao mesmo tempo que estudava, leccionava Inglês, cantava  no Coro do Círculo Portuense de Ópera, mergulhava nos cineclubes do Porto e do Norte , andava pelo Teatro Universitário do Porto, metia-me na política estudantil e fazia amizade com alunos e professores. Foi uma época historicamente rica e pessoalmente muito interessante.  

- Qual a importância da U.Porto no seu percurso profissional e que modo foi de encontro às suas expectativas?

Claro que a licenciatura foi importantíssima. Fiz 5 anos de estudos profundos num curso em que ter 13 valores numa cadeira era excepcional – e invejava-se os alunos de História, por exemplo, com notas muito mais elevadas. Mas  o que estudei ,serviu para a vida toda. Ao todo estudei  5 línguas que me fizeram cidadã do mundo, a minha actividade cultural com o Fantasporto, por exemplo,  passa por muitos contactos internacionais e pelo conhecimento dos povos, a minha escrita passa pelos bons professores que tive,  e sobretudo o meu modo de estar na vida passa pela exigência e pelo rigor. Até ter escolhido o Porto para trabalhar na área cultural no fim do curso tem a ver com opções claras –  lembro-me que até recusei uma bolsa para a Alemanha oferecida pelo Professor Franco e outra para a Universidade de Exeter. Hoje já não o faria, claro. Ser mulher culta nessa altura era muito mais complicado, mesmo familiarmente.  Hoje olho para trás e não lamento nada.  E só espero que os jovens de hoje compreendam como o sucesso pessoal tem de estar ligado a uns estudos sólidos. Por isso me custa tanto o facilitismo e a leviandade de certas decisões tomadas pelos nossos politicos.
 
- Como avalia o papel desempenhado pela Universidade no seio da comunidade (cidade, região, país) e de que modo ele se poderá projectar para o futuro?

Neste ponto, tenho ser um pouco crítica. Tenho mais de 40 anos dedicados à vida cultural, 31 anos de Fantasporto que sempre levou música, artes plásticas, literature, além de cinema, às pessoas.  E não posso dizer que a Universidade do Porto tenha sido determinante para a vida cultural no Porto, por exemplo.  Há um universo muito fechado- e agora, como membro do Conselho Geral, da U.Porto o que muito me orgulha, aliás – tenho ocasião de ver como é ainda muito incompleta a união entre a Universidade e a Sociedade. Muito preocupante é a sua falta de ligação com as Escolas Secundárias públicas que deverão ser o seu maior fornecedor de alunos de qualidade. Há também muita atençãop dada à qualidade, o que me agrada de sobremaneira, mas os nossos excelentes estão a ser enviados para o estrangeiro e raramente voltam para desenvolver a sua actividade principal em benefício do nosso país.  Internacionalizar é importante, claro, mas a base de trabalho da Universidade (os alunos)  está a deteriorar-se gradualmente através de factores fundamentais:  um grau de literacia preparatória insuficiente, um grau de esforço para o sucesso cada vez menor, um apelo ao fácil e ao mediático muito forte. A isto não é alheio o declínio do ensino das Humanidades na UP em detrimento das Tecnologias. A U.Porto deve ser um farol do conhecimento mas também um guia em todos os aspectos do Saber. Eu sou idealista, como se pode ver.

- Que caminho deverá ser percorrido para afirmar cada vez mais a Universidade no contexto regional, nacional e internacional? Como prevê o papel de uma Universidade do Porto daqui a 100 anos?

A Universidade do Porto já é a mais importante, a que preenche as suas vagas rapidamente, a que congrega um vasto conjunto de professores marcantes nas respectivas áreas. Penso que vai na boa direcção se não se preocupar demasiado com rankings; se se organizar na captação dos melhores alunos; se alargar as suas fronteiras para a Televisão, um meio de formação que não se pode desprezar porque entra na casa das pessoas sem ser convidada. Se a paixão que cada especialista da U.Porto se transmitisse mediaticamente como Costeau fazia com os fundos do mar ou David Attenborough com a fauna e a flora do planeta, não atrairia muitos mais  à universidade e ao Saber? É importantíssimo dar a ideia de que saber é uma vantagem e que o esforço é sempre necessário para o sucesso, repito. O papel da Universidade do Porto daqui a 100 anos será, como hoje já é, o de consagrar, o mais rapidamente possível, o Porto como uma cidade de eruditos, criadores, cientistas e especialistas, Como Oxford, por exemplo. Mas a sua modernidade tem de ser visível e atractiva em todos os aspectos e para toda a gente. Daí, a sua ligação à sociedade ser absolutamente necessária.

- Mensagem alusiva aos 100 anos da Universidade do Porto (formato livre)

Parabéns a todos os que, pelo seu esforço, alunos, professores e funcionários, fizeram da UP uma referência  na sua vida profissional e pessoal. Parabéns aos que, saídos já da Universidade, mantêm  hoje critérios de excelência  e sensatez. Parabéns aos que, entrando agora para a Universidade do Porto, se dispõem ao trabalho honesto. 100 anos só é muito tempo se não se tiver o futuro pela frente.

 
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