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D. Januário Torgal Ferreira: "A U.Porto deve prosseguir como centro nevrálgico de cidadania"

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O Olhar de...

- Professor e sacerdote português (mais informações)

- Bispo das Forças Armadas e de Segurança (desde 2001)

- Presidente da Comissão Episcopal das Migrações e Turismo e da Pax Christi,

- Antigo estudante da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, com Licenciatura em Filosofia (1962-1970)

- Professor Assistente na Faculdade de Letras da Universidade do Porto entre 1970 e 1989

-  Medalha D. Afonso Henriques, Mérito do Exército, 1ª classe (2008)

 

- Como é que teve origem e se desenvolveu a sua ligação à Universidade do Porto? Que principais momentos guarda da sua experiência enquanto estudante e, posteriormente, como professor?

 

Em 1960 fui nomeado pelo Administrador Apostólico do Porto, Senhor D. Florentino Andrade e Silva, professor de Filosofia do 3º ciclo do colégio diocesano da Formiga (Ermesinde). Em ordem à devida especialização incumbiu-me de proceder à inscrição no Curso de Filosofia da Faculdade de Letras, a ser restaurada no Porto, muito em breve.

Tive que me sujeitar, entretanto, à conformidade legal que urgia o exame das disciplinas do 7º ano liceal, da Secção de Letras, por não vigorar ainda a equivalência estatal do ensino dos Seminários.

Costumo destacar (por orgulho parolo) os bons ofícios dessa legislação disconforme…. Só mercê do vigente, me foi possível conseguir, na minha vida um 20 (na disciplina de Literatura Portuguesa, no Liceu de Viana de Castelo, em 1962).

Resultou para mim, em experiência saborosa, a frequência da Faculdade de Letras, quer como aluno quer como assistente do mesmo claustro universitário. Mau grado as tensões académicas, as rivalidades de competição, o conturbado da temperatura política, as más e as boas vontades… tudo isto tão natural como o mundo é natureza, a Universidade do Porto representou (e representa) na minha formação global, uma fase excelente. Experienciei limites, tive consciência de dificuldades, conheci obstáculos, próprios de uma faculdade incipiente.

Senti clubismos e clientelas sob o halo de interesses de grupos e da situação política.

E tudo isto vivido em ambiente ameno, como se nada corresse à nossa volta e na própria intimidade da instituição, onde, felizmente, eram palpáveis, pela coragem dos próprios, as dissensões e os questionamentos. Não era difícil prever que uma “grande depressão” nos espreitava.

Guardo dos condiscípulos, dos colegas em geral e dos professores, uma impressão sentida. E o facto de ser padre, e em momento já de natural complexidade, parecia-me dever ter motivado um natural anti-clericalismo (o qual nunca foi, no seu todo, totalmente negativo do ponto de vista histórico).

Mas não foi o caso, pelo mérito dos outros.

Do ponto de vista do magistério, tive consciência de sinais (raros…raríssimos) de menos ética e responsabilidade. É próprio de sociedades competitivas na sua estrutura de carreira. Nenhum obstáculo foi impeditivo do gosto de investigar e de aprofundar o saber. As condições epocais privilegiavam um tom pessoalmente individualista, longe de aspectos grupais e de activa participação. Muito, excepcionalmente, nos era solicitada a investigação, como exercício de aprendizagem e de “sistema” essencial de descoberta. Tudo conforme aos primeiros aos passos de uma nóvel instituição. Devo acrescentar que, enquanto aluno e docente, múltiplas instâncias me enriqueceram. A capacidade de diálogo, o afrontamento de situações, a exigência intelectual manifesta por não poucas pessoas, as questões ideológicas, o desassossego face à pouca convivência com os discentes, (anos mais tarde acrescentada, por motivos de ruptura politica geral), … estes, e tantos outros aspectos, foram reflexos na construção da personalidade. Nada se perde… Se não tivesse sido aluno da Universidade do Porto não teria vivido a oportunidade de um estágio em Paris (1968-1969) em ordem à dissertação de licenciatura, e anos mais tarde, em razões do doutoramento (1977-1979), cuja não efectivação foi da minha exclusiva responsabilidade.

 

- Qual a importância da U. Porto no seu percurso profissional e de que modo foi de encontro às suas expectativas?

 

A Universidade do Porto foi para mim a Faculdade de Letras, e as demais Faculdades da sua constelação, onde fiz conhecimentos, amizades, aprendendo com todos a olhar o mundo com maior nitidez, tal a riqueza dessas visões plurais. Algumas, bem diferentes das minhas. Mas é com o contrário e o contraditório que se afinam convicções e sabedoria(s). Não posso deixar de sublinhar que orgânicas circum-escolares, e algumas para além delas, como a JUC (Juventude Universitária  Católica), tiveram o mérito do “choque de culturas”. A Faculdade de Letras, conforme já referi, era uma faculdade jovem, construída com muita boa vontade, mas com declarada inexperiência. A abertura a demais escolas e a outras correntes de opinião e tendências, as perspectivas do mundo global, e até do europeísmo, as exigências pedagógico-científicas, eram só expectativas. Houve “mandarins” do antes e do depois. O que mais me escandalizou foram os “jogos de conveniência” e os equívocos duma entidade, cuja lógica deveria ser a do rigor e da verdade. Conflitualidades, só as da interpretação, com certeza. Mas não era o caso. Mas os desvios à cidadania deveriam ter representado, enquanto fenómenos, condições de incremento cívico.

O clima sociológico, que se respirava, nunca impediu os meus interesses culturais e o bem estar psicológico. Ao contrário, motivou a capacidade crítica e configurou-se como um álbum histórico de personalidades e de seus objectivos. As micro-sociedades têm esse mérito, mesmo nos limites das suas fronteiras.

 

- Como avalia o papel desempenhado – no presente e no passado – pela universidade no seio da comunidade (cidade, região, país), com especial enfoque na sua ligação à população?

 

Foi esta uma perspectiva acentuada por razões do 25 de Abril, Felizmente!

Sempre julguei que a Universidade deveria ser um contributo modelar em ordem ao contexto sócio-geográfico, na erradicação de injustiças, preconceitos e analfabetismos de toda a ordem, perfilando-se como “razão(ões)” do desenvolvimento, “pensando em grande”, com base na humildade do aprender com “corredores de fundo”, e estimulando a construção de horizontes largos e de futuro. Mas, neste como em variados domínios, vingava o acanhado! Às vezes interrogo-me o que têm feito tantos profissionais, que tiveram a dita (e a responsabilidade) de conhecer ambientes de vanguarda, onde se cultivava (ao menos como pretensão legítima) a genialidade. Tenho a convicção do esforço e empenhamento que têm caracterizado a Universidade do Porto nos últimos longos anos, sem elidir seu passado, sem desrespeitar pessoas e suas práticas científicas.

Por tudo o que tenho lido e auscultado, parece-me que a Universidade do Porto franqueou as portas de um outro paradigma (pelo menos, em não poucas faculdades) apresentando-se, mais do que nunca, como protagonista de lídimos valores culturais, no diálogo com outros construtores do bem comum nacional, e da região, em particular.

 

- Que caminho deverá ser percorrido para afirmar cada vez mais a Universidade no contexto regional, nacional e internacional?

 

A abertura às exigências cientificas e sociais de outros países e suas culturas, a sensibilidade à preparação cientifica e pedagógica de seus profissionais, ao serviço de um país progressivo (oxalá!), a presença de seus alunos e professores no âmbito de sectores de ensino e de responsabilidades várias do país, não permitirão que se perpetue a figura do “Clerc” e do intelectual conformista.

Um servidor universitário move-se pelas preocupações dos vazios da cultura, e por via disso, dos critérios de civilização. Nunca pelo prestígio exterior e mundano do seu “claustro”, com suas fidalguias, linhagens e nepotismos.

Sempre fui de opinião que uma inteligente prática cultural era apanágio de certas faculdades (peço perdão, se for injusto, e se o for, é por ignorância). Acho que a Faculdade de Ciências é capaz de ter sido pioneira, com a de Engenharia, destas “estratégias” de grande lucidez. Se alguém era convidado para assistente, volvidos dois/três  anos, era encaminhado para doutoramento, e para universidades estrangeiras bem conhecidas pelos professores da casa, os quais percorreram esse caminho.

Em algumas Faculdades, o “estrangeiro” era uma moda, uma alienação, uma camuflagem…!

Mas, em Janeiro de 1976, num hospital prestigiado de Londres, ouvi, da boca de um médico egípcio, aí a estagiar, a pergunta a respeito de sobrinho meu, com doença delicadíssima: “Mas não há “disto” (referia-se à moderna ressonância magnética) em Portugal?”

Hoje, pelos vistos, há tudo. Óptimo! Mas o “cruzar de opiniões” e o “diálogo são o princípio de toda a ciência”

 

- Mensagem alusiva aos 100 anos da Universidade do Porto.

 

Evoco a parecer de Ortega y Gasset no primeiro centenário de Goethe: “Para quê celebrar? É muito simples…Essa realidade tem um sentido”. “Tem sentido” fazer memória da Universidade do Porto. Há galeria de professores e alunos a nunca esquecer, sem etiquetas nem exclusões. Os valores da seriedade, do carácter, da competência sem sombras, da personalidade e do risco, das descobertas e hipóteses de transformação, da coragem sem aproveitamentos, da seriedade sem alianças espúrias, do gosto de saber mais e do seu transmitir, um discipulato e um magistério de sabedoria, em aras de Honra e de Progresso, nunca serão olvidados!

Nunca preconizei elitismos. Sempre rejubilei com quem, por razões, serviu a lucidez!

A Universidade do Porto deve prosseguir como centro nevrálgico da cidadania do país, e da região norte, tão augusta como olvidada.

As múltiplas gerações voltarão a Atenas e a Roma, a rejubilar com a ágora da democracia, com o foro de todos os direitos.

É num Estado de direito que uma Universidade está em seu lugar!

A do Porto, por todos os motivos, será sempre gémea de uma cidade livre e invicta. Tem a força do poder. A do pensar e da decisão livre!

 
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