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Isabel Pires de Lima: “Impõe-se-nos não deixar que a Universidade se transforme numa máquina de produção de profissionais”

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O Olhar de...

- Professora universitária e política portuguesa

- Professora catedrática e investigadora da Faculdade de Letras da U.Porto (FLUP), especializada em Literatura Portuguesa

- Ministra da Cultura do XVII Governo Constitucional (2005-2008)

- Deputada à Assembleia da República entre 1999 e 2008

- Antiga Estudante da FLUP, com Licenciatura em Filologia Românica (1974) e Doutoramento em Literatura Portuguesa (1987)

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- Como é que teve origem e se desenvolveu a sua ligação à Universidade do Porto? Que principais momentos guarda da sua experiência enquanto estudante e professora da FLUP?

 

A minha chegada à UP (FLUP) em 1969-70 foi, como a de tantos outros estudantes à época, a entrada no que julgávamos que era e era, até um certo ponto, um outro mundo: um oásis de alguma liberdade num país cheio de prisões, as materiais e as imateriais, estas últimas, (censura e autocensura, família, Igreja, moral do­minante), ainda em maior número e diversidade que as primeiras. Não cheguei “inocente” à Universidade: por um lado, os ecos de Maio de 68 e a crise académica de 69 em Coimbra e Lisboa e por outro, uma família onde se falava do mundo e de política e se lia livros malquistos pela censura do então já velhíssimo e anacrónico Estado Novo fizeram com que as minhas expetativas fossem elevadas e esperasse/exigisse que esse outro mundo onde ia entrar, já tão longínquo da Braga fechada e apagada da minha infância feliz de menina da classe média, fosse o limiar de um mundo mais livre e aberto.

 

Claro que a Universidade que me esperava, pelo menos em termos institucionais, respondia muito pouco a estas expectativas. Era uma instituição em profunda crise e com pouquíssimos meios para enfrentar os desafios da contemporaneidade, que se por um lado tinha consciência de que os tempos da mudança estavam eminentes e não conseguia já impermeabilizar-se relativamente a esse novo sopro dos dias, por outro encenava ainda o seu secular estatuto de sede hierá­tica de um saber fechado e alheado das premências do presente. Muitos, rapidamente, sentimos vontade de gritar com os nossos colegas franceses - "Fin de l'Uni­versité" -, sem que isso fosse incompatível com um certo prazer de a frequentar, de a sentir como espaço de convívio (com o “Piolho” como sede informal), de ter a sensação que era lá que as coisas aconteciam ou podiam acontecer - e aconteciam discus­sões, "meetings", invasões da polícia, R.G.A.s, debates ideológi­cos que separavam águas entre fascistas e revolucionários - é claro que só havia estes dois campos cultivados, no meio era o deserto do nosso desinte­resse -, discussões que opunham revolu­cionários e mais revolucionários, mais revolucion­ários e mais, mais revolucionários, etc., etc. Recordo - e digo-o sem ironia, ou só com alguma - a brilhante e inteli­gente voz do "opinion maker" revolucionário, Pacheco Pereira, perorando para as massas da escada interior do velho edifício das Letras; recordo, em contraponto, um tal Sotto Mayor, líder assumido da dama do regime, que se recusaria, pouco depois, na manhã do 25 de Abril, a cumprir ordens superiores de disparar de dentro de um tanque militar contra as forças revoltosas.

 

As aulas talvez fosse o menos importante ou, sendo mais justa com alguns professores brilhantes com os quais me cruzei e que foram meus mestres, abrindo-me espaços inéditos de saber e de usufruto artístico, poucas aulas eram importantes. Importante era tudo o resto e esse tudo o resto por vezes até era trazido por professores jovens que estabeleciam bases informais de convívio e de abertura ao pensamento crítico que a sala de aula não permitiria - e no meu recém-criado curso de Filologia Românica lembro José Adriano de Carvalho e Arnaldo Saraiva.

 

E, um dia, o mundo mudou e aquela Universidade morreu ou, se não morreu, nunca mais foi a mesma. Com o 25 de Abril, o tempo passou a correr a uma velocidade nova, vertiginosa nalguns momentos. A Universidade passou a ser um espaço de uma grande efervescência, criou muita coisa nova, trouxe ao seu seio muitos cientistas e intelectuais que dela estavam forçadamente afastados – no caso da FLUP e do meu curso, não quero deixar de evocar dois nomes: Óscar Lopes e José Augusto Seabra -, trouxe visitantes ilustres cuja presença física seria inimaginável antes - relembro a visita entusiasmante de Jean-Paul Sartre e de Simone de Beauvoir (que aliás, em reverência feminista, tive ocasião de entrevistar). Enfim, a Universidade passou a ser coisa sentida como nossa. É esse sentido novo de pertença a um corpo coletivo e coletivamente atuante que retenho como sendo a mais produtiva e criativa consequência imediata do 25 de Abril na Universidade.

 

- Qual a importância da Universidade no seu percurso profissional e que modo foi de encontro às suas expectativas?

 

Logo nesse ano de 74, passei de estudante a assistente e isso fez com que a Universidade se transformasse definitivamente na minha vida e com que pudesse ter participado nas grandes mudanças que no seu seio ocorreram. Tudo mudou ou pelo menos tudo foi questionado: da relação pedagógica aos percursos curriculares, da tipologia dos cursos às possibilidades abertas aos jovens assistentes ao nível da preparação dos seus doutoramentos, da gestão tornada democrática e participada à própria conceção da escola na sua atenção e abertura à comunidade. Umas mudanças foram imediatas e radicais, outras muito mais lentas e até aparentes. Foram anos difíceis mas entusiasmantes os que se seguiram com a Universidade a aumentar exponencialmente o número dos seus estudantes embora ainda com escassos recursos humanos e técnicos.

 

Foram anos determinantes para a minha formação como docente e investigadora, uma formação feita muito solitariamente e sem grandes enquadramentos institucionais, porque os recursos materiais e humanos na minha recém-formada Faculdade eram escassos, a biblioteca pobre e desatualizada, os mestrados e as pós-graduações inexistentes, os centros de investigação, uma miragem, a integração em redes internacionais de investigação nula. Claro que isto não retira a importância de mestres que, pela via universitária se cruzaram na minha vida profissional e foram determinantes para o meu percurso: José Adriano de Carvalho, Óscar Lopes, Jacinto do Prado Coelho, Eduardo Lourenço. Nem retira a possibilidade, que a Universidade me abriu, de uma complementação da formação além-fronteiras, designadamente na École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris, e do estabelecimento, sobretudo depois do meu Doutoramento, em 1987, uma vasta rede de contactos internacionais.

 

Foram anos imensamente gratificantes do ponto de vista da prática docente. Experimentei as alegrias de ser professor as quais advêm de se sentir e compreender quanto a nossa prática pedagógica pode contribuir para abrir caminhos e fornecer aos estudantes instrumentos para pensar mais e melhor e, ao mesmo tempo, para alargar o nosso próprio pensamento.

 

A Universidade foi mudando e, sobretudo nos anos noventa, mudou substancialmente a sua inscrição na cidade; foi-se transformando mais e mais naquilo que é hoje - uma instituição de portas abertas à cidade e à região, procurando responder às solicitações do exterior, às necessidades do mundo da produção e do trabalho, um polo dinamizador do pensamento e da investigação cada vez mais atrativo em múltiplos domínios de formação para os nosso jovens e para jovens de todo o mundo. E não se creia que este processo de abertura foi rápido e pacificamente aceite; também ele foi avançando aos poucos e com muitas reticências de setores que continuavam a persistir em imaginar a Universidade como bastião secularmente fechado do saber. Recordo como aquilo que se costuma designar por trabalho de extensão universitária era frequentemente avaliado negativamente pela Universidade, que via nele uma espécie de distração relativamente à investigação pura e dura. No meu caso, esse trabalho, que desde cedo desenvolvi em proximidade com as instituições culturais da cidade e sempre em articulação com o meu próprio trabalho de investigação universitária, acabou por me conduzir a um percurso de cerca de dez anos, que fiz na vida política, sete dos quais como parlamentar e três como membro do Governo.

 

- Como avalia o papel desempenhado pela Universidade no seio da comunidade (cidade, região, país) e de que modo ele se poderá projetar para o futuro?

 

Hoje, a nossa Universidade é uma pedra basilar do desenvolvimento da região norte e do país. A ciência e o pensamento que se produzem no seu seio têm sido determinantes para a afirmação de certos nichos de excelência quer no setor produtivo, quer no setor dos serviços. Pena é que os tempos que vivemos não permitam fazer repercutir ainda mais no desenvolvimento regional e nacional nem aquela produção nos domínios da ciência e do pensamento, nem a mais valia dos recursos humanos que formamos. É com pena que vemos em consequência fugir da Universidade, da região e do país, muitos, às vezes os melhores, dos que preparamos com elevado nível de competências, os quais, aliás, se integram e disputam sem dificuldade no exigente mercado de trabalho global.

 

- Que caminho deverá ser percorrido para afirmar cada vez mais a Universidade no contexto regional, nacional e internacional?

 

A Universidade pós-Bolonha é melhor e pior que a que conhecemos no século XX. Cumpre-nos aproveitar o que de melhor nos trouxe e conquistámos, mas impõe-se-nos também o dever de não deixar que se transforme, em nome das muitas virtualidades da Universidade aberta, democrática e tendencialmente profissionalizante de hoje, apenas numa máquina de produção de profissionais e até de investigadores formatados para e pelo mercado e à sua exclusiva medida, que nem sempre é a medida do futuro. Uma Universidade com futuro continua a ser hoje, como ao fim e ao cabo sempre, aquela que treina no pensamento, no pensamento cognitivo e no pensamento emocional, que o mesmo é dizer que treina nas ciências e nas artes, que produz inovação – e é sempre bom lembrar, não há inovação sem pensamento. O futuro transporta a interdisciplinaridade e a interculturalidade: o mundo mostra-o já hoje a quem estiver atento a mais do que à simples espuma dos dias. Se a nossa Universidade não entender isso perderá o futuro.

 

- Que Universidade do Porto gostaria que se celebrasse daqui a 100 anos?

 

Não consigo imaginar a Universidade daqui a cem anos; consigo porém perceber que daqui a dez, vinte, trinta, ela será mais interdisciplinar e mais intercultural e o fosso entre ciências ditas exatas e ciências ditas sociais e artísticas tenderá a esbater-se contra a persistência de setores, no fundo conservadores, que ainda não perceberam que a Universidade da era global está a retomar o ideal renascentista das Humanidades no sentido de se tornar pedra angular da construção de um mundo que precisa de ser re-humanizado.

 

- Mensagem alusiva aos 100 anos da Universidade do Porto.

 

Gostaria que a minha Universidade persistisse em ser, como nestes cem anos tem feito, contra muitas circunstâncias adversas e umas tantas favoráveis, uma Universidade que pelo cultivo do pensamento antecipe o futuro.

 
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