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Arnaldo Saraiva: “A Universidade será cada vez menos um lugar de privilegiados”

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O Olhar de...

- Professor universitário, ensaísta e poeta português

- Professor catedrático jubilado da Faculdade de Letras da U.Porto (FLUP). Professor Emérito da U.Porto (2011)

- Presidente da Fundação Eugénio de Andrade

- Co-fundador do Centro de Estudos Pessoanos e da revista Persona

- Antigo estudante da FLUP, com Doutoramento em Literatura Brasileira (1986)

 

- Como é que teve origem e se desenvolveu a sua ligação à Universidade do Porto? Que principais momentos guarda dessa experiência?

 

Estava no início de 1970 em Paris, a preparar uma tese sob a orientação de Roland Barthes, quando Maria de Lourdes Belchior, que fora minha professora na Faculdade de Letras de Lisboa, onde me licenciei, insistiu comigo para integrar o corpo docente da Faculdade de Letras do Porto, na secção de Filologia Românica criada poucos meses antes. Vencidas hesitações próprias de quem estava em Paris como bolseiro e nem conhecia o Porto, foi com naturalidade, mas também com euforia, que me instalei meses depois nessa cidade – a que viria a dedicar os livros O Sotaque do Porto e O Sentimento do Porto – e passei a ensinar na sua universidade. O prazer do ensino e da investigação, que sempre tive, não me permite privilegiar momentos especiais. Mas é difícil esquecer, por exemplo, o dia em que fui com alguns alunos ao Quartel General solicitar que a Junta de Salvação Nacional determinasse a nomeação - que a PIDE impedira - de Oscar Lopes como professor da Faculdade de Letras; ou o encontro público que programei, na mesma faculdade, com Jean-Paul Sartre; ou a criação da cadeira de Literaturas Orais e Marginais; ou a fundação do Centro de Estudos Pessoanos; ou a realização de vários colóquios internacionais; ou a publicação da revista Terceira Margem, a única fora do Brasil consagrada só à literatura brasileira; ou as reuniões de preparação do Boletim da Universidade do Porto... E, claro, os dias em que me apresentei a provas públicas.

 

- Qual a importância da U.Porto no seu percurso profissional e que modo foi de encontro às suas expectativas?

 

Em cerca de quatro décadas de docência universitária, só não trabalhei na Universidade do Porto num ano em que fui bolseiro em Paris, nos dois anos em que ensinei na Universidade da Califórnia em Santa Bárbara, e no ano em que ensinei na Sorbonne Nouvelle. Isto poderá indiciar a importância que a Universidade do Porto teve na minha vida profissional. É evidente que se ela não respondesse satisfatoriamente às minhas expectativas teria aceite convites que me chegaram para ensinar noutras universidades, não só da França ou dos Estados Unidos.

 

- Como avalia o papel desempenhado pela Universidade no seio da comunidade (cidade, região, país) e de que modo ele se poderá projectar para o futuro?

 

Quando cheguei ao Porto, a cidade conhecia alguma pujança económica, mas era pobre de espaços ou atividades culturais relevantes: havia o Teatro Experimental do Porto, o Cineclube, a livraria Leitura, a galeria Alvarez, a Cooperativa Árvore (a cuja direcção logo me liguei), e pouco mais. Se hoje esses espaços se multiplicaram, se o Porto tem em vários sectores, que não só no do vinho e do futebol, grande prestígio nacional e internacional, isso deve-se, parece-me, à sua Universidade. Com o peso científico e cultural que ela tem, e que estimula o trabalho de qualidade de outras instituições, universitárias ou não, o Porto tornou-se uma cidade efervescente e cosmopolita, onde, se não estão resolvidos alguns problemas sociais, há muita gente orgulhosa da sua cidade (não só pelas suas prodigiosas  paisagens) e sempre pronta a exigir um estatuto de liberdade e dignidade que o centralismo lisboeta não pode impedir. É de esperar que a Universidade se torne ainda mais exigente no trabalho em favor da comunidade portuense e portuguesa, mas também na contribuição para o progresso de outras comunidades, a começar pelas lusófonas.

 

- Que caminho deverá ser percorrido para afirmar cada vez mais a Universidade no contexto regional, nacional e internacional? Que Universidade do Porto gostaria que fosse celebrada dentro de 100 anos?

 

Não me preocupam as celebrações que se façam daqui a cem anos; e a Internet talvez venha a tornar obsoleto o modelo tradicional das universidades. O que me preocupa é o que se deve fazer agora para que possamos garantir e tornar fecundo um ensino verdadeiramente superior. E parece que não há receitas milagrosas, salvo as da qualidade da docência e da atenção permanente ao particular e ao universal, ao nacional e ao internacional. Na medida dos recursos económicos de que disponha, a Universidade do Porto deve ter docentes tão qualificados como os das melhores universidades do mundo, deve criar condições de investigação exemplares, deve estreitar relações com os mais criativos centros de investigação e deve desempenhar um papel decisivo no progresso e no bem-estar das comunidades que nela confiam.

 

- Mensagem alusiva aos 100 anos da Universidade do Porto.

 

O Porto não teve, como Lisboa ou Coimbra, uma universidade criada em tempos medievais, mas soube, a partir do momento em que pôs em funcionamento escolas superiores, fazer com que elas desempenhassem um papel relevante na vida nacional. A história recente da Universidade do Porto parece garantir que ela não será só uma “corporação de professores e estudantes”, pois se quer aberta ou colaborante com toda a sociedade, que será cada vez menos um lugar de privilegiados que promovem outros privilegiados e será cada vez  mais um lugar de trabalho a favor da melhor cidadania e da melhor qualidade de vida, um  lugar de promoção do saber - e da sabedoria de viver.

 

Foto: Flora Pimentel

 
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